segunda-feira, 1 de junho de 2015

O Casarão

Nono dia
Estou sentada, olhando a porta do meu quarto bater a cada cinco segundos, exatamente. Logo ele entrará e morrerei sem ninguém ao menos saber o que aconteceu aqui.

Primeiro dia
Estou me mudando, finalmente, para minha nova casa. Na antiga casa eu era obrigada a conviver com meu ex-marido levando mulheres onde era nossa casa. Não aguentava mais, então, chamei um corretor para me ajudar a escolher uma nova casa bem longe dali. Ele foi rápido, me mostrou um casarão onde teria um escritório para continuar escrevendo meu livro tranquilamente. Tem um quintal enorme, dois andares. No andar de baixo tem uma cozinha, copa, sala de estar, sala de visitas e banheiro já no andar de cima, tem o quarto principal com suíte, o escritório e mais dois quartos menores e um banheiro. O preço estava acessível e adorei a decoração rústica. Decidi me mudar para lá o quanto antes. Estou empurrando meu ex-marido preguiçoso para carregar as últimas coisas até lá.

Segundo dia
Estou terminando de arrumar as coisas por aqui. Não sabia que existiam tanto pó e teias de aranha que coubesse em uma só casa. Não pude dormir ontem no casarão porque a cama nova ainda não tinha chegado, mas estão a trazendo agora mesmo. Anoiteceu e a casa está quase descente. Hora de dormir.

Terceiro dia
É madrugada e ouço barulhos no andar de baixo da casa, tenho que me lembrar de espalhar ratoeiras por todo o canto. Amanheceu e não estou me sentindo bem, provavelmente estou com febre, meu nariz está entupido por toda a poeira que inspirei nesses três dias. Vou ao médico. Acabei de chegar do hospital, fiz alguns exames e estou com um tipo de inflamação no pulmão. Tomarei alguns remédios e ficarei bem.

Quarto dia
São três e meia da manhã e escuto os mesmos barulhos de ontem, me esqueci de colocar as ratoeiras. Antes mesmo do café da manhã estou saindo para comprar as tais ratoeiras. As espalhei por todos os cantos da casa.

Quinto dia
Novamente são três e meia da manhã e mesmo com as ratoeiras, há barulhos vindo de baixo e agora estão mais altos. Melhor eu descer e ver o que está fazendo esses barulhos. Descendo as escadas, vejo um vulto pelo canto do olho me indicando que há animais, talvez um guaxinim. Anoto em um papel para chamar o dedetizador e prego à geladeira. Subo as escadas e durmo.
O dedetizador chega em casa ao alvorecer enquanto trabalho no meu livro. Atendo o velho desdentado. Mostro a ele a casa e volto para o escritório. Uma hora depois escuto gritos finos e o que parecia ser unhas arranhando o piso. Penso que ele deve ter pegado o guaxinim. Desço para cumprimentar o dedetizador. O procuro pela casa e não o encontro. Estranho. Será que ele foi embora sem o pagamento? Olho a janela e vejo que o carro do dedetizador ainda está lá. Grito por ele e penso que ele deve estar no carro pegando algumas coisas. Deixo um bilhete de agradecimento e o pagamento pelo serviço. Me preparo para dormir.

Sexto dia
É sábado e decido sair com minhas amigas, beber em nosso bar preferido e escutar música ao vivo.

Sétimo dia
Acordo com alguém batendo à minha porta. Ando cambaleando e tentando me recordar o que aconteceu noite passada. Minha cabeça lateja e meus olhos ardem. Abro a porta e tem dois policiais com distintivos na minha cara dizendo que um homem está desaparecido. Me mostram a foto dele e o reconheço como o dedetizador que pegou o guaxinim à um dia atrás. Pela fresta entre um policial e outro, reparo que o carro do dedetizador ainda está lá, mas pelo jeito que os policiais me olharam, acredito que já saibam disso. Pedem para entrar e olhar a casa. Eu deixo, claro, pois não tenho nada a esconder. Pergunto a eles se aceitam café, pois eu estou querendo. Os deixo na sala de estar e vou para a cozinha preparar o café. Quebro um copo e me corto enquanto pego os cacos. Faço um curativo rápido no corte e termino o café. Vou para a sala onde os policiais estavam, mas não os encontro lá. Procuro no andar de cima e também não estão. Imagino que tenham ido embora enquanto eu recolhia os cacos.

Oitavo dia
Vou para a cama bem cansada às duas horas da manhã depois de terminar de escrever meu livro. Durmo por uma hora, mas algo me faz acordar. Não me lembro de ter deixado a janela aberta. Levanto com preguiça e a fecho. Volto a deitar apenas por alguns minutos, pois ouço barulhos lá em baixo. Dessa vez resolvo matar eu mesma aquele animal. Desço com um cabo de vassoura tremendo. Na sala de estar, acendo a luz. Há alguém ali. Não é uma pessoa, nem ao menos um animal que eu já tenha visto, pelo menos. Grito o mais alto possível. A coisa está de pé, mas logo fica de quatro. Seus olhos vermelhos, sua pele grossa e cheia de verrugas e seus dentes pontudos. A luz se apaga. Seguro o cabo de vassoura como se fosse a coisa mais preciosa que já segurei. Escuto pequenos gritos finos e sinto sua respiração ofegante bem perto de mim. Minha mão em um só movimento faz com que o cabo gire e acerta aquela coisa que grita de raiva. As luzes se acendem novamente e não há mais nada ali. Nesse momento não sei o que fazer e só penso em sair correndo dessa casa. Vou para a porta. Está trancada e a chave sumiu. Sinto que aquele monstro voltará a qualquer minuto. Subo as escadas a fim de achar a chave e de repente eu percebo uma coisa que nunca havia visto antes. Tem uma porta do lado esquerdo da escada. Uma porta pequena entreaberta que antes estava camuflada. Ignoro a porta e vou em direção para o meu quarto procurar a chave. Paro e me viro um tanto inconsciente para a porta que acabei de ver. Escuto uma voz macia e meiga me chamando. A parede está se movendo. Percebo que andei quando já estou empurrando a pequena porta. Dou meia volta e corro. No caminho, tropeço no tapete e bato a cabeça.

Nono dia
Não sei que horas são. Estou deitada no corredor com uma dor de cabeça e escutando zumbidos. Me levanto. Olho para aquela portinha novamente, tomo coragem e decido entrar. Pego uma lanterna que guardo no armário. Vou até lá. Empurro a porta e me abaixo para entrar. Acendo a lanterna e dou um grito ao saber o que há naquele lugar. O cheiro dos corpos mortos talvez a anos exala impregnando tudo em mim. Alguns dos corpos estavam faltando partes como mãos e pernas. Tem sangue para todo o lado e muitas moscas. Olho para o canto da parede e reconheço três corpos. O dedetizador e os dois policiais. O medo esperado chegou em dobro ao escutar aqueles mesmos gritos finos e risadas. Virei-me para sair antes que seja lá quem for, soubesse que eu estava ali. Mas é claro que ele já sabia. Puxo a porta, mas alguma coisa pega o meu pé. Olho para constatar que era aquele mesmo monstro que estava na minha sala ontem. O chuto enquanto ele me arrasta e me machuca com suas unhas enormes. Continuo o chutando com mais força até ele me soltar e eu ter alguns segundos para fugir. Chego à porta e saio. Corro até o meu quarto e tranco a porta. Estou sentada, olhando a porta do meu quarto bater a cada cinco segundos, exatamente. Logo ele entrará e morrerei sem ninguém ao menos saber o que aconteceu aqui.