Ernesto e Lorena

Lorena

Lembro muito bem do primeiro dia em que o vi. Tinha sido um dia tenso de tempo nublado e garoas em que todo paulistano já se acostumou. Naquele dia, peguei o ônibus para ir ao curso que fazia toda sexta-feira em uma cidade vizinha. O curso foi cansativo e não parava de pensar na hora em que eu estaria em casa para descansar. Saindo de lá, andei um pouco para pegar o ônibus no terminal. Me recordo de ter pensado como as coisas conspiram para tudo dar errado na vida. Chegando ao terminal, logo soube que havia problemas técnicos e não poderia pegar o ônibus lá. Dei voltas e voltas até encontrar um ponto em que eu poderia pegar o ônibus. Uma hora depois, estava na minha rua praticamente correndo para encontrar o conforto da minha casa e, principalmente, da minha cama. Já era à noite, minha cabeça latejava indicando que logo a enxaqueca atacaria novamente e percebi a escuridão na minha rua onde indicava que estava com falta de energia. Legal, pensei. Subi as escadas com a ajuda da luz do celular, encontrei minha cadela que parece sempre animada com a minha presença, abri a porta gritando pela minha mãe. Ela não estava em casa e revirei na minha cabeça se ela tinha dito alguma coisa de ter algum compromisso essa noite. Não encontrei nada. Ela deve estar na vizinha fofocando, pensei alto, dando uma risada sem graça. Peguei uma vela, acendi e decidi que iria cozinhar um macarrão, mas algo me interrompeu...
Escutei um barulho que aparentemente parecia ser a porta do meu quarto e cogitei se minha janela estaria aberta. Caminhei com a vela na mão passando da cozinha para a sala e chegando ao meu quarto. Abri cautelosamente a porta e tive uma surpresa. Havia alguém no meu quarto. Ele estava no meu quarto parado atrás da porta, como se estivesse me esperando. Aquele momento foi uma confusão em minha mente e meus sentimentos, todos desorganizados esperando uma ordem para voltarem ao normal ou qualquer coisa assim. Porém, com o choque que eu tive, paralisei por alguns minutos. Não conseguia tirar os olhos daquele homem e me perguntar o que ele estaria fazendo ali olhando fixamente nos meus olhos e sorrindo com seus dentes incrivelmente brancos. Usava terno e gravata bem ajustados ao corpo, como se fossem feitos especialmente para ele, o que não fazia sentido se fosse um ladrão ou estuprador. Ainda não conseguia me mover e então observei cada movimento que ele fez. Por um tempo continuou ali, parado, me olhando com aquele sorriso. Então, ele deu um passo e depois outro, passou por mim sem tirar os seus olhos dos meus, continuou andando. Eu me virei para saber até onde ele iria. E assim, sem dizer uma palavra, Ernesto saiu do alcance da minha visão. Depois daquele encontro, só me lembro de estar sentada no chão ao lado da minha cama chorando enquanto minha mãe me perguntava o que havia acontecido.

Ernesto


Andando por ai, encontrei uma garota que me chamou a atenção: era exatamente o tipo de pessoa em que eu estava acostumado a trabalhar. Seu nome era Lorena. Observando-a no seu dia-a-dia, pude ver que ela era sensível e tímida. Quando criança, não tinha muitos amigos e chorava finais de semana por falta de quem brincar. Ela lidava muito mal com suas emoções, sabia disso e sentia-se envergonhada. Passei muito tempo a observando até que chegou o dia em que tive que fazer uma intervenção.
Na sua adolescência, Lorena se apaixonou por músicas tristes e gostava de escrever textos que refletiam tudo o que guardava dentro de si. Apesar disso, Lorena gostava de passar para as outras pessoas que era forte, até que encontrou alguém que podia ser quem realmente era. Eu não sabia muito bem se aquilo era para a Lorena. Por toda sua vida, imaginava que Lorena iria acabar com alguns de meus clientes onde jamais conheceriam o amor ou conheceria só amar, não sendo recíproco. Mas foi diferente...
Passando-se os anos, Lorena com seus amigos era uma garota que tinha um gosto excêntrico, mas também poderia ser amigável. Na intimidade do seu quarto ela apenas se sentia como ninguém. Todas as noites antes dela dormir chorava com um travesseiro abafando seus ruídos para ninguém da sua família escutar. O insistente pedido para conhecer a morte dela me chamava a atenção, fazendo minha alma querer se conectar a dela.
Escolhi o dia certo para aparecer para ela, pois, como eu conheço todos os seus pensamentos, sabia o que ela planejava para quando chegaria em casa. 

Lorena


Algumas semanas depois do dia em que aquele cara estranho apareceu no meu quarto, acabei o esquecendo e voltando a minha rotina normal. Até que mais uma vez ele apareceu. Desta vez, eu estava deitada em minha cama, prestes a pegar no sono. Olhei pelo canto do olho e lá estava ele ao lado da minha cama me observando com aquele mesmo sorriso de sempre. Senti um leve arrepio passando pelo meu corpo e soltei um gemido abafado me sentindo estranha e incapaz. Perguntei a ele com indignação e medo, talvez, quem era ele e o que queria comigo. Eu estava tremendo. Apesar de todo o terror na minha cabeça, algo nele me chamou a atenção: ao contrário do que eu havia visto na sua primeira aparição, seu sorriso não parecia algo assustador e maligno e isso me tranquilizou, por alguns segundos, pois seu sorriso desapareceu e sua boca começou a tremer como se ele não conseguisse controlar seus lábios. Fiz as mesmas perguntas que anteriormente, desta vez com um tom mais alto e menos trêmulo. Seus lábios, ainda tremendo, abriram e fecharam com hesitação. Por fim, ele falou com uma voz tranquila: 
Olá garotinha. Sei muita coisa sobre você, acredita? Meu nome é Ernesto e... Não, não, não fique assustada, não vou te fazer mal. Me escuta, tá bom?  Eu te observo há muito tempo e sei que precisa de ajuda.”  
Eu não entendia nada, queria que ele fosse embora ou que nunca tivesse aparecido. Eu não precisava de ajuda de ninguém, eu queria ir embora... Lágrimas saíram dos meus olhos e escorreram pelo meu rosto tão rápido que quase não as senti. Me virei para ficar de costas para ele e desejei que ele fosse embora. Depois disso, só me lembro de acordar no dia seguinte com o som do despertador me avisando que estava na hora de me arrumar para ir à escola...
(Continua)

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