quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Skype

Eu tenho certeza que você conhece o Skype. É um programa grátis que você usa para conversar com qualquer pessoa, por webcam ou microfone. Eu usei o Skype para manter contato com alguns amigos, já que a maioria de nós estava indo para a faculdade.
Semana passada eu estava conversando com Annie, uma garota que conheci na escola. Nós acabamos de nos mudar para nossos novos apartamentos, ambos estamos solteiros e o primeiro semestre ainda não havia começado – o que significa muito tempo para conversar. Normalmente nós conversaríamos pelo menos uma vez ao dia.
Os assuntos que nós conversávamos não eram tão interessantes: Ela havia comprado fones novos, eu assisti A Princesa Prometida pela primeira vez. Mas isso não era sobre o assunto, era apenas legal ter alguma companhia familiar para conversar, sabe?
Enfim... Era uma manhã de terça-feira e eu estive fora na noite passada, e ainda podia sentir o efeito da ressaca... Mas fui acordado com o som da chamada do Skype, me xinguei mentalmente por ter deixado o notebook ligado e levantei da cama massageando as têmporas.
“Hnnhg, oi?”
Meus olhos estavam doloridos e eu tive que lutar para me concentrar e mantê-los abertos, a luz do monitor parecia muito mais forte. Annie estava sorrindo e arrumada, exibindo seus novos fones de ouvido. Ela acenou para mim levemente, e eu tentei responder com um sorriso.
“Olha só, quanta animação.” Ela disse.
“Você deveria ter me visto noite passada, meus movimentos na pista deixaram todos no chão.”
“Isso não me impressiona... Ei, você não tem um encontro com o seu tutor hoje?”
Eu olhei para meu calendário, mas a tinta da caneta parecia correr pelo papel, então eu presumi que ela estava certa, e imaginei sair pela manhã, qualquer raio de sol por minúsculo que fosse estava fazendo meus olhos latejarem.
“Ah, que se dane,” Eu murmurei. “E você, quais são os planos para hoje?”
“Esperando uma ligação da Erin. Ela viajou ontem, deixou apenas uma carta na mesa dela, dizendo que ia visitar a família.”
“Quem é Erin mesmo?” Eu perguntei, sério. Sabe como é, seus amigos falam demais dos outros amigos e você acaba não lembrando quem é quem. Annie fez uma careta.
“Minha “vizinha”, o quarto dela é em frente ao meu. Ela simplesmente desapareceu, quer dizer... Isso foi há um dia, mas eu estava pensando em dar uma ligada para os pais dela, só para saber se ela está bem.”
Eu dei de ombros. “Melhor prevenir do que remediar, não é?”

Antes que ela pudesse responder ouvi um som de alarme, ela começou a falar várias coisas que foram abafadas pelo barulho e eu cobri minhas orelhas. “O que você disse?”
“Eu disse: É o alarme de incêndio! Eu vou lá fora só por um momento ou a supervisora vai encher muito meu saco.”
“Que horas eu posso te ligar?” Eu disse, falando o mais alto que pude, mas sem gritar. Minha cabeça ainda estava doendo.
“Não se preocupe, só vou ficar lá por no máximo cinco minutos, vou deixar o Skype aberto.”
E depois de dizer isso, ela levantou, colocando os fones na mesa e saiu do quarto. Após alguns minutos o alarme cessou.
E então a porta abriu.
Não era Annie, no entanto. Estava usando um surrado terno velho e azul; um chapéu e uma máscara feita de algum bode ou ovelha, mas meus olhos foram atraídos pelas mãos: Uma luva de borracha que parecia ter algum tipo de zíper... Eu podia imaginar essas luvas em mãos açougueiros ou pessoas que saem para caçar.
Por alguns segundos eu apenas sentei lá e fiquei me perguntando se esse era algum tipo de brincadeira que a Annie estava fazendo comigo, mas depois de alguns minutos analisando a figura, parei de pensar e resolvi fazer algo.
“O que você está fazendo? Quem é você?”
A figura não me respondeu, não podia me ouvir de qualquer jeito, os fones da Annie ainda estavam conectados no notebook. Então, ele apenas ficou lá, observando o quarto. Alguns momentos depois, começou a se aproximar da mesa enquanto eu passei a mão na minha, procurando meu celular. Eu precisava avisar Annie!
Selecionei o número dela, não tirando meus olhos da tela nem por um momento. E ele parecia me olhar de volta, quase penetrando a tela.
Conectando........
Click.
Chamando........

A figura mascarada congelou. E então, calma e lentamente esticou sua mão para o espaço fora da câmera. Eu tentei me esticar e enxergar, mas era impossível.
E então eu vi.
Estava segurando o celular da Annie – ela havia deixado na mesa.
A figura virou sua cabeça para o lado, me jogando o que eu chamaria de “olhar de piedade” antes de ignorar minha ligação e colocar algo em cima da mesa de Annie. Eu vi por apenas um momento, mas parecia um envelope.
A figura andou até o closet dela e abriu a porta, se esgueirando dentro do local um momento depois, tentando se encaixar. Por um segundo, pareceu hesitar, olhando para a webcam e encontrando meus olhos, por um momento vi sua boca e seus dentes, que pareciam esboçar um sorriso.
E então fechou a porta do closet.
Eu olhei para meu celular, eu precisava chamar a polícia, não havia duvidas, mas assim que disquei o número percebi o quão estúpido soava aquilo. A cidade de Annie estava a mais de 3000km de distância da minha, eu não poderia ajudar.
Disquei o número mesmo assim.

Conectando........
Click.
Chamando........

“Emergência, em que posso ajudar?”
“Ah sim, eu preciso relatar algo—”
Não pude completar a frase.
Não pude completar a frase porque vi Annie abrindo a porta e entrando no quarto correndo. O cabelo dela estava molhado por causa da chuva e ela sorria enquanto se aproximava da webcam. Eu gritei o mais alto que pude, ainda ignorando a dor de cabeça que senti, pedi pra ela correr e senti lágrimas quentes descendo pelo canto dos meus olhos. Ela não me escutava!
Ela se sentou e pegou os fones de ouvido, e enquanto eu gritava a porta do closet se abria.
“Senhor, em que posso ajudar?”

“Senhor, o que você precisa relatar? Você está machucado?”
"Senhor?"


(Creepypasta retirada do site CreepypastaBrasil)

segunda-feira, 1 de junho de 2015

O Casarão

Nono dia
Estou sentada, olhando a porta do meu quarto bater a cada cinco segundos, exatamente. Logo ele entrará e morrerei sem ninguém ao menos saber o que aconteceu aqui.

Primeiro dia
Estou me mudando, finalmente, para minha nova casa. Na antiga casa eu era obrigada a conviver com meu ex-marido levando mulheres onde era nossa casa. Não aguentava mais, então, chamei um corretor para me ajudar a escolher uma nova casa bem longe dali. Ele foi rápido, me mostrou um casarão onde teria um escritório para continuar escrevendo meu livro tranquilamente. Tem um quintal enorme, dois andares. No andar de baixo tem uma cozinha, copa, sala de estar, sala de visitas e banheiro já no andar de cima, tem o quarto principal com suíte, o escritório e mais dois quartos menores e um banheiro. O preço estava acessível e adorei a decoração rústica. Decidi me mudar para lá o quanto antes. Estou empurrando meu ex-marido preguiçoso para carregar as últimas coisas até lá.

Segundo dia
Estou terminando de arrumar as coisas por aqui. Não sabia que existiam tanto pó e teias de aranha que coubesse em uma só casa. Não pude dormir ontem no casarão porque a cama nova ainda não tinha chegado, mas estão a trazendo agora mesmo. Anoiteceu e a casa está quase descente. Hora de dormir.

Terceiro dia
É madrugada e ouço barulhos no andar de baixo da casa, tenho que me lembrar de espalhar ratoeiras por todo o canto. Amanheceu e não estou me sentindo bem, provavelmente estou com febre, meu nariz está entupido por toda a poeira que inspirei nesses três dias. Vou ao médico. Acabei de chegar do hospital, fiz alguns exames e estou com um tipo de inflamação no pulmão. Tomarei alguns remédios e ficarei bem.

Quarto dia
São três e meia da manhã e escuto os mesmos barulhos de ontem, me esqueci de colocar as ratoeiras. Antes mesmo do café da manhã estou saindo para comprar as tais ratoeiras. As espalhei por todos os cantos da casa.

Quinto dia
Novamente são três e meia da manhã e mesmo com as ratoeiras, há barulhos vindo de baixo e agora estão mais altos. Melhor eu descer e ver o que está fazendo esses barulhos. Descendo as escadas, vejo um vulto pelo canto do olho me indicando que há animais, talvez um guaxinim. Anoto em um papel para chamar o dedetizador e prego à geladeira. Subo as escadas e durmo.
O dedetizador chega em casa ao alvorecer enquanto trabalho no meu livro. Atendo o velho desdentado. Mostro a ele a casa e volto para o escritório. Uma hora depois escuto gritos finos e o que parecia ser unhas arranhando o piso. Penso que ele deve ter pegado o guaxinim. Desço para cumprimentar o dedetizador. O procuro pela casa e não o encontro. Estranho. Será que ele foi embora sem o pagamento? Olho a janela e vejo que o carro do dedetizador ainda está lá. Grito por ele e penso que ele deve estar no carro pegando algumas coisas. Deixo um bilhete de agradecimento e o pagamento pelo serviço. Me preparo para dormir.

Sexto dia
É sábado e decido sair com minhas amigas, beber em nosso bar preferido e escutar música ao vivo.

Sétimo dia
Acordo com alguém batendo à minha porta. Ando cambaleando e tentando me recordar o que aconteceu noite passada. Minha cabeça lateja e meus olhos ardem. Abro a porta e tem dois policiais com distintivos na minha cara dizendo que um homem está desaparecido. Me mostram a foto dele e o reconheço como o dedetizador que pegou o guaxinim à um dia atrás. Pela fresta entre um policial e outro, reparo que o carro do dedetizador ainda está lá, mas pelo jeito que os policiais me olharam, acredito que já saibam disso. Pedem para entrar e olhar a casa. Eu deixo, claro, pois não tenho nada a esconder. Pergunto a eles se aceitam café, pois eu estou querendo. Os deixo na sala de estar e vou para a cozinha preparar o café. Quebro um copo e me corto enquanto pego os cacos. Faço um curativo rápido no corte e termino o café. Vou para a sala onde os policiais estavam, mas não os encontro lá. Procuro no andar de cima e também não estão. Imagino que tenham ido embora enquanto eu recolhia os cacos.

Oitavo dia
Vou para a cama bem cansada às duas horas da manhã depois de terminar de escrever meu livro. Durmo por uma hora, mas algo me faz acordar. Não me lembro de ter deixado a janela aberta. Levanto com preguiça e a fecho. Volto a deitar apenas por alguns minutos, pois ouço barulhos lá em baixo. Dessa vez resolvo matar eu mesma aquele animal. Desço com um cabo de vassoura tremendo. Na sala de estar, acendo a luz. Há alguém ali. Não é uma pessoa, nem ao menos um animal que eu já tenha visto, pelo menos. Grito o mais alto possível. A coisa está de pé, mas logo fica de quatro. Seus olhos vermelhos, sua pele grossa e cheia de verrugas e seus dentes pontudos. A luz se apaga. Seguro o cabo de vassoura como se fosse a coisa mais preciosa que já segurei. Escuto pequenos gritos finos e sinto sua respiração ofegante bem perto de mim. Minha mão em um só movimento faz com que o cabo gire e acerta aquela coisa que grita de raiva. As luzes se acendem novamente e não há mais nada ali. Nesse momento não sei o que fazer e só penso em sair correndo dessa casa. Vou para a porta. Está trancada e a chave sumiu. Sinto que aquele monstro voltará a qualquer minuto. Subo as escadas a fim de achar a chave e de repente eu percebo uma coisa que nunca havia visto antes. Tem uma porta do lado esquerdo da escada. Uma porta pequena entreaberta que antes estava camuflada. Ignoro a porta e vou em direção para o meu quarto procurar a chave. Paro e me viro um tanto inconsciente para a porta que acabei de ver. Escuto uma voz macia e meiga me chamando. A parede está se movendo. Percebo que andei quando já estou empurrando a pequena porta. Dou meia volta e corro. No caminho, tropeço no tapete e bato a cabeça.

Nono dia
Não sei que horas são. Estou deitada no corredor com uma dor de cabeça e escutando zumbidos. Me levanto. Olho para aquela portinha novamente, tomo coragem e decido entrar. Pego uma lanterna que guardo no armário. Vou até lá. Empurro a porta e me abaixo para entrar. Acendo a lanterna e dou um grito ao saber o que há naquele lugar. O cheiro dos corpos mortos talvez a anos exala impregnando tudo em mim. Alguns dos corpos estavam faltando partes como mãos e pernas. Tem sangue para todo o lado e muitas moscas. Olho para o canto da parede e reconheço três corpos. O dedetizador e os dois policiais. O medo esperado chegou em dobro ao escutar aqueles mesmos gritos finos e risadas. Virei-me para sair antes que seja lá quem for, soubesse que eu estava ali. Mas é claro que ele já sabia. Puxo a porta, mas alguma coisa pega o meu pé. Olho para constatar que era aquele mesmo monstro que estava na minha sala ontem. O chuto enquanto ele me arrasta e me machuca com suas unhas enormes. Continuo o chutando com mais força até ele me soltar e eu ter alguns segundos para fugir. Chego à porta e saio. Corro até o meu quarto e tranco a porta. Estou sentada, olhando a porta do meu quarto bater a cada cinco segundos, exatamente. Logo ele entrará e morrerei sem ninguém ao menos saber o que aconteceu aqui.

terça-feira, 26 de maio de 2015

O Observador

Ele era um rapaz de vinte anos de idade com uns gostos excêntricos, por assim dizer. Ele gostava de sair à noite pelas ruas da sua cidade, encontrar pessoas aleatórias para julgá-las e tentar adivinhar como elas seriam em seu dia-a-dia. Era simples, ele começava pela rua de sua casa, que era bastante movimentada, ficava ali aproximadamente dez minutos com um caderno de rascunhos, fazendo caricaturas e anotando detalhes como roupa e o jeito de andar. Ele também dava nomes às pessoas que achava que combinaria com elas.
10/09/1980
Mulher, “Giovana”. Olhos castanhos, cabelos descoloridos com raiz preta. Batom vermelho, olhos bem delineados. Capa de chuva transparente com pequenas gotículas. Está frio e ela usa um casaco de peles por cima do seu minivestido com estampa de onça decotado, meia-calça arrastão e salto vermelho.

Após isso, ele ia para sua casa vazia, colocava tudo na sua mesa de escritório e senta em sua cama. Não tinha amigos e sua família foi morta misteriosamente depois de terem sido desenhados. No dia seguinte ele acordava, pegava o jornal e lia a matéria da primeira página que dizia: “Mais uma vítima do maníaco que ronda nossa cidade foi encontrada morta. Desta vez, uma prostituta. Alertamos a população para que fiquem atentos ao andar a noite pelas ruas. Ele mata as vítimas depois de segui-las até suas casas e as esfaqueia, deixando uma caricatura ao lado dos corpos".

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Júlio

Não sei se deveria perder meu tempo aqui contando minha história, sendo que ela jamais voltará, mas meu psicólogo me disse que compartilhar a dor com outras pessoas pode ajudar a superá-la. Mal sabe ele que nunca mais serei a mesma...
Em um dia chuvoso, decidi levar minha filha, Belle, para um passeio. Você pode estar achando estranho levar uma criança para passear em um dia como aquele, com altas pancadas de chuva e risco de alagamentos no centro de São Paulo. Até eu me sinto estranha, mas vou explicar: acontece que Belle, por algum motivo solitário, ama dias chuvosos e nublados. Em dias quentes de verão, minha querida filha me parece deprimida e sem ânimo nem para as melhores atividades que eu, como mãe coruja, poderia propor.
Desde bebê, eu via algo diferente nela. Ela recusava o meu leite materno e só tomava leite de cabra. Antes mesmo do seu primeiro ano de vida, Belle já andava relativamente bem e formava frases longas que nem crianças de três anos falavam. Com dois anos aprendeu sozinha a ler e a escrever. No começo me orgulhava e me sentia realizada por ter uma filha assim, porém, quando Isabelle tinha quatro anos de idade, comecei a me preocupar com as atitudes dela.
Posso contar a vocês de certa manhã em que acordei com barulhos vindos da cozinha. Como só morávamos eu e minha filha no apartamento, suspeitei de ser algum rato, ou pior, um ladrão. Peguei a primeira coisa que vi – que era uma vassoura encostada no vão entre meu quarto e o corredor - e caminhei sem fazer barulho até a cozinha. Sem perceber que eu estava ali, Isabelle estava com uma faca de serra na mão, cortando pequenas fatias de presunto e queijo. Na mesa havia café aparentemente recém passado, fatias de pão francês e um bolo de cenoura – o meu preferido. Eu realmente me assustei e só Deus sabe onde minha pressão arterial foi parar vendo minha filhinha cozinhando como se fosse uma adulta e com sérios riscos de se queimar ou se cortar. Depois de me acalmar e me lembrar de que Belle não era uma típica criança, consegui me abaixar para ficar na altura dela e perguntei como ela tinha feito tudo aquilo. Isabelle sorriu e disse em uma voz extremamente infantil:
“Mamãe, o Júlio e eu fizemos tudo isso para você, é uma surpresa nossa para mostrar o nosso amor”.
Me sentei à mesa com Belle e perguntei quem era Júlio, afinal Belle não conhecia mais ninguém a não ser nossa família. Nesse momento, tudo de ruim passou na minha cabeça e meu mundo estava prestes a desabar sob meus pés. Belle se recusava a contar mais sobre essa pessoa misteriosa. Em uma epifania, me lembrei da coisa que Belle mais gostava depois de dias chuvosos: sorvete de flocos. Prometi a ela que logo mais a levaria na sorveteria preferida dela se me contasse mais sobre esse tal de Júlio. Então, ela me olhou nos olhos e disse:
“Mamãe, eu conheço o Júlio desde o dia que eu nasci, como a senhora não sabe quem é? Ele sempre esteve aqui.
Um vento correu pela casa inteira, chegando ao meu rosto em frações de segundos e me dando arrepios por todo o corpo. Milhões de pensamentos passaram pela minha cabeça naquele momento que não tive tempo de organizar, até que me lembrei das muitas vezes em que sentia uma presença diferente no quarto de Belle, mas nunca dei atenção a isso.
Naquele mesmo dia, procurei um psicólogo. Ele me pediu para ver a Belle e consulta-la semanalmente. E assim foi por um ano. Desde então, Belle não voltara a falar sobre o misterioso Júlio e eu também não tive coragem de perguntar. Suas atitudes voltaram a ser de uma garotinha, mas alguma coisa me dizia que não seria assim por muito tempo.
Na fase entre os cinco anos de idade, nós, mães, percebemos que nossos filhos estão crescendo, pois chega a hora de eles frequentarem a escola. Essa foi a fase mais difícil tanto para mim, quanto para Isabelle. Ela se recusava incansavelmente a se vestir, chorava o caminho todo e quando chegava lá, na maioria das vezes eu tinha que trazê-la de volta por perceber a sua alta temperatura corporal.
Depois dos dias se arrastarem lentamente desse jeito, tomei atitude para ir ao psicólogo e contar o que eu estava passando com o recuso de Belle em ir à escola. Ele me acalmou dizendo que era normal, pois ela ainda não estava preparada para se afastar de quem ela mais amava, no caso, eu. Aproveitei o ensejo e perguntei ao doutor se Belle, em alguma de suas sessões, havia mencionado o nome Júlio, ou se tinha falado alguma coisa diferente. Ele me surpreendeu dizendo que ela nunca sequer pareceu com uma garota diferente das demais. Será que eu estava errada todos esses anos achando que Belle era uma criança diferente? Será que eu coloquei tanto isso na minha cabeça que acabei prejudicando minha própria filha? Mas neste mesmo dia, uma coisa muito estranha aconteceu.
Depois de passar no psicólogo da Belle, fui ao supermercado comprar um pote de sorvete de flocos para alegrar minha filha quando ela chegasse da casa da minha mãe. Estava abalada psicologicamente, então, desmarquei a minha hora no salão. Cheguei em casa no final da tarde, a casa estava silenciosa e resolvi relaxar lendo um bom livro. Cinco ou dez minutos depois, escutei um barulho que vinha da sala de estar. Eram vozes e fiquei tentando lembrar se tinha deixado a televisão ligada antes de sair. Levantei e fui em direção à sala e identifiquei uma silhueta de um garoto sentado em frente a TV. Não era um garoto normal. Ele usava uma camiseta vermelha que, logo percebi, estava ensanguentada. Os seus olhos eram totalmente pretos, seu nariz parecia quebrado e sua boca cortada formava um sorriso torto e demoníaco. Ele estava inquieto, porém, estava parado bem a minha frente, sem se mexer nem um centímetro. Eu quis gritar, mas eu não conseguia parar de olhar os olhos enormes daquele garoto ou o que quer que ele seja. Na minha cabeça passava perguntas que precisavam ser respondidas, então, quando finalmente abri minha boca para perguntar quem diabos era ele, ele já não estava mais ali. Ele desapareceu como num passe de mágicas, deixando apenas um rastro de sangue e uma brisa gélida.
Peguei minha chave do carro e sai em disparada para a garagem. Queria chegar logo na casa da minha mãe e abraçar a minha filha. Dirigi por longos vinte minutos pela estrada molhada de uma chuva serena que teve mais cedo. Chegando em casa, bati a porta atrás de mim e me deparei com o silêncio incômodo, muito diferente do que eu estava acostumada na casa da mamãe. Estava frio e todas as janelas estavam abertas. Passei da sala para a cozinha, subi as escadas sem me livrar do pensamento de que algo estava errado naquela casa e, realmente, meus piores pensamentos se materializaram bem a minha frente quando o mesmo garoto que eu havia visto a meia hora atrás na minha casa apareceu. Meu corpo travou, minhas mãos gelaram e o garoto me olhava não mais com inquietação, mas ele parecia tranquilo e o branco dos seus olhos voltou, apesar de nada tirar aquele sorriso sombrio de seus lábios. Dessa vez, ele estava se mexendo. Não de uma forma normal. Ele girava primeiro a cabeça, depois o corpo e por fim, os pés. Ele gritava o nome de Belle, a chamando, talvez, e meu rosto corou de raiva por aquele monstro querer a minha filhinha. Gritei as primeiras palavras que vieram na minha cabeça o fazendo parar de chamar por Belle e de rodopiar. Quando eu finalmente achei que ele iria responder as minhas perguntas, aquela coisa sumiu novamente. Voltei a mim depois de um tempo que não sei distinguir se foi um minuto ou uma hora e entrei no quarto de mamãe. Lá estava minha mãe, deitada, dormindo como um anjinho. Cheguei ao seu lado, encostei a mão nela com o intuito de acordá-la e contar o que havia acontecendo e perguntar se eu tinha ficado louca. Seu corpo estava com um gélido tom não humano. Meu coração voltou a disparar imediatamente e um medo me cercou. Chamei mamãe por mais algum tempo até reparar que eu estava pisando em uma enorme possa de sangue. Um grito longo e tremido saiu da minha garganta. Vi uma faca ensanguentada ao lado do corpo sem vida de mamãe, porém não havia nenhum corte, aparentemente. Naquela altura do campeonato, quis correr para longe daquele pesadelo mas fui obrigada a me conter pelo bem de Belle. Sai do quarto de mamãe tentando não pensar no que havia acabado de presenciar e mantive o foco em Belle. O quarto de hóspedes ficava no fim do corredor e imaginei que Belle poderia estar lá. O corredor tinha só alguns metros, mas para mim, pareciam quilômetros... Enfim minha mão estava na maçaneta onde Belle deveria estar. Deveria pois ela não estava em sua cama. Era um pesadelo. Sim, um simples pesadelo que logo vai acabar.
Cadê minha filha?
Eu gritava por ela e várias lágrimas escorreram no meu rosto. Quando me virei para sair daquele quarto ouvi a voz de Belle me chamando vindo de dentro do guarda-roupa. Eu o abri com minhas mãos trêmulas e, digo para vocês, nunca fiquei tão aliviada na minha vida abraçando a Isabelle. Dei uma rápida olhada para a Belle e notei seu vestido que estava manchado de sangue e seus olhos que antes eram azul bebê, agora estavam negros como uma noite sem luar. Ignorando esses detalhes, peguei a mãozinha dela e a conduzi, rapidamente, para fora. Estávamos perto de sair da última porta da casa Belle parou inesperadamente. Apesar de tudo agitado dentro de mim, me abaixei para olhar em seus olhos e falei:
Filha, querida, vamos embora, vamos para casa, meu amor. A vovó não está bem e...”.
Ela me interrompeu:
Mamãe, a vovó está morta, o Júlio disse que ela era má e eu acredito nele. Ele não quer que eu vá embora, mamãe”.
O quê? O que você disse Belle?
Lágrimas escorriam dos meus olhos desesperados.
Mãe, não fique assim, está tudo bem, está chovendo, é um dia bom”.
Realmente estava chovendo e naquela situação eu nem tinha reparado. Depois de tanto tempo com essa dúvida, achei que era uma boa oportunidade em perguntar à Belle o porquê de ela gostar tanto da chuva.
É em dias de chuva que o Júlio aparece para brincar, mãe”.
Sim, era por isso! Tinha chovido aquele dia...
O garoto apareceu pela terceira vez interrompendo meus pensamentos e agora parecia com raiva e ansioso. Belle sorriu e perguntou a mim se poderia brincar com ele hoje. Isso já estava me cansando a tal ponto que poderia fazer qualquer coisa para essa coisa sair de nossas vidas. Eu disse a Belle que nunca mais veria o Júlio novamente e, em contrapartida, ele gritou de volta dizendo que Isabelle era dele e ninguém poderia ficar no caminho, nem mesmo eu – o jeito como ele disse aquelas palavras doeu profundamente na minha alma e o meu instinto de mãe me dominou, me fazendo ignorar o monstro, pegar Belle no colo e sair correndo para o meu carro que estava estacionado do outro lado da rua ao lado de duas enormes árvores que eu costumava subir quando era da idade de Belle. A coloquei na cadeirinha no banco de trás, liguei o motor e acelerei o máximo que pude. Naquele momento, não sabia exatamente para onde eu iria mas queria sair dali, talvez ir para o interior tirar umas férias, ou quem sabe, até nos mudar de país. Mas esse pensamento saiu rapidamente da minha cabeça quando eu olhei para o banco de trás e lá estava aquele monstro de novo sentado ao lado e sorrindo para a minha filha.
Minha filha!
Na adrenalina, acelerei ao invés de frear na curva perigosa, fazendo o meu carro bater no poste e capotar duas vezes até o carro parar do outro lado da estrada. Três dias depois acordei em um hospital com a visão um tanto turva, escutando um barulho horrível e com a consciência falha, reuni forças para perguntar onde estava Belle e se ela estava bem. A enfermeira que estava comigo no quarto me olhou com estranheza e me disse que não sabia quem era Belle e que não havia mais ninguém no carro quando me encontraram.

Nunca mais vi minha filha Isabelle. Reza a lenda que Júlio está por ai em dias chuvosos procurando garotinhas para “brincar”.