Não sei se deveria perder meu tempo aqui contando minha
história, sendo que ela jamais
voltará, mas meu psicólogo me disse que compartilhar a dor com outras pessoas
pode ajudar a superá-la. Mal sabe ele que nunca mais serei a mesma...
Em um dia chuvoso, decidi levar minha filha, Belle, para um
passeio. Você pode estar achando estranho levar uma criança para passear em um
dia como aquele, com altas pancadas de chuva e risco de alagamentos no centro
de São Paulo. Até eu me sinto estranha, mas vou explicar: acontece que Belle,
por algum motivo solitário, ama dias chuvosos e nublados. Em dias quentes de
verão, minha querida filha me parece deprimida e sem ânimo nem para as melhores
atividades que eu, como mãe coruja, poderia propor.
Desde bebê, eu via algo diferente nela. Ela recusava o meu
leite materno e só tomava leite de cabra. Antes mesmo do seu primeiro ano de
vida, Belle já andava relativamente bem e formava frases longas que nem
crianças de três anos falavam. Com dois anos aprendeu sozinha a ler e a
escrever. No começo me orgulhava e me sentia realizada por ter uma filha assim,
porém, quando Isabelle tinha quatro anos de idade, comecei a me preocupar com
as atitudes dela.
Posso contar a vocês de certa manhã em que acordei com
barulhos vindos da cozinha. Como só morávamos eu e minha filha no apartamento,
suspeitei de ser algum rato, ou pior, um ladrão. Peguei a primeira coisa que vi
– que era uma vassoura encostada no vão entre meu quarto e o corredor - e
caminhei sem fazer barulho até a cozinha. Sem perceber que eu estava ali,
Isabelle estava com uma faca de serra na mão, cortando pequenas fatias de
presunto e queijo. Na mesa havia café aparentemente recém passado, fatias de
pão francês e um bolo de cenoura – o meu preferido. Eu realmente me assustei e
só Deus sabe onde minha pressão arterial foi parar vendo minha filhinha
cozinhando como se fosse uma adulta e com sérios riscos de se queimar ou se
cortar. Depois de me acalmar e me lembrar de que Belle não era uma típica
criança, consegui me abaixar para ficar na altura dela e perguntei como ela
tinha feito tudo aquilo. Isabelle sorriu e disse em uma voz extremamente
infantil:
“Mamãe, o
Júlio e eu fizemos tudo isso para você, é uma surpresa nossa para mostrar o
nosso amor”.
Me sentei à mesa com Belle e perguntei quem era Júlio, afinal
Belle não conhecia mais ninguém a não ser nossa família. Nesse momento, tudo de
ruim passou na minha cabeça e meu mundo estava prestes a desabar sob meus pés.
Belle se recusava a contar mais sobre essa pessoa misteriosa. Em uma epifania,
me lembrei da coisa que Belle mais gostava depois de dias chuvosos: sorvete de
flocos. Prometi a ela que logo mais a levaria na sorveteria preferida dela se
me contasse mais sobre esse tal de Júlio. Então, ela me olhou nos olhos e
disse:
“Mamãe, eu conheço o
Júlio desde o dia que eu nasci, como a senhora não sabe quem é? Ele sempre esteve aqui”.
Um vento correu pela casa inteira, chegando ao meu rosto em
frações de segundos e me dando arrepios por todo o corpo. Milhões de
pensamentos passaram pela minha cabeça naquele momento que não tive tempo de
organizar, até que me lembrei das muitas vezes em que sentia uma presença
diferente no quarto de Belle, mas nunca dei atenção a isso.
Naquele mesmo dia, procurei um psicólogo. Ele me pediu para
ver a Belle e consulta-la semanalmente. E assim foi por um ano. Desde então,
Belle não voltara a falar sobre o misterioso Júlio e eu também não tive coragem
de perguntar. Suas atitudes voltaram a ser de uma garotinha, mas alguma coisa
me dizia que não seria assim por muito tempo.
Na fase entre os cinco anos de idade, nós, mães, percebemos que
nossos filhos estão crescendo, pois chega a hora de eles frequentarem a escola.
Essa foi a fase mais difícil tanto para mim, quanto para Isabelle. Ela se
recusava incansavelmente a se vestir, chorava o caminho todo e quando chegava
lá, na maioria das vezes eu tinha que trazê-la de volta por perceber a sua alta
temperatura corporal.
Depois dos dias se arrastarem lentamente desse jeito, tomei
atitude para ir ao psicólogo e contar o que eu estava passando com o recuso de
Belle em ir à escola. Ele me acalmou dizendo que era normal, pois ela ainda não
estava preparada para se afastar de quem ela mais amava, no caso, eu.
Aproveitei o ensejo e perguntei ao doutor se Belle, em alguma de suas sessões,
havia mencionado o nome Júlio, ou se tinha falado alguma coisa diferente. Ele
me surpreendeu dizendo que ela nunca sequer pareceu com uma garota diferente
das demais. Será que eu estava errada todos esses anos achando que Belle era
uma criança diferente? Será que eu coloquei tanto isso na minha cabeça que
acabei prejudicando minha própria filha? Mas neste mesmo dia, uma coisa muito estranha
aconteceu.
Depois de passar no psicólogo da Belle, fui ao supermercado
comprar um pote de sorvete de flocos para alegrar minha filha quando ela
chegasse da casa da minha mãe. Estava abalada psicologicamente, então,
desmarquei a minha hora no salão. Cheguei em casa no final da tarde, a casa
estava silenciosa e resolvi relaxar lendo um bom livro. Cinco ou dez minutos
depois, escutei um barulho que vinha da sala de estar. Eram vozes e fiquei
tentando lembrar se tinha deixado a televisão ligada antes de sair. Levantei e
fui em direção à sala e identifiquei uma silhueta de um garoto sentado em
frente a TV. Não era um garoto normal. Ele usava uma camiseta vermelha que,
logo percebi, estava ensanguentada. Os seus olhos eram totalmente pretos, seu
nariz parecia quebrado e sua boca cortada formava um sorriso torto e demoníaco.
Ele estava inquieto, porém, estava parado bem a minha frente, sem se mexer nem
um centímetro. Eu quis gritar, mas eu não conseguia parar de olhar os olhos
enormes daquele garoto ou o que quer que ele seja. Na minha cabeça passava
perguntas que precisavam ser respondidas, então, quando finalmente abri minha
boca para perguntar quem diabos era ele, ele já não estava mais ali. Ele
desapareceu como num passe de mágicas, deixando apenas um rastro de sangue e
uma brisa gélida.
Peguei minha chave do carro e sai em disparada para a garagem.
Queria chegar logo na casa da minha mãe e abraçar a minha filha. Dirigi por
longos vinte minutos pela estrada molhada de uma chuva serena que teve mais
cedo. Chegando em casa, bati a porta atrás de mim e me deparei com o silêncio
incômodo, muito diferente do que eu estava acostumada na casa da mamãe. Estava
frio e todas as janelas estavam abertas. Passei da sala para a cozinha, subi as
escadas sem me livrar do pensamento de que algo estava errado naquela casa e,
realmente, meus piores pensamentos se materializaram bem a minha frente quando
o mesmo garoto que eu havia visto a
meia hora atrás na minha casa apareceu. Meu corpo travou, minhas mãos gelaram e
o garoto me olhava não mais com inquietação, mas ele parecia tranquilo e o
branco dos seus olhos voltou, apesar de nada tirar aquele sorriso sombrio de
seus lábios. Dessa vez, ele estava se mexendo. Não de uma forma normal. Ele
girava primeiro a cabeça, depois o corpo e por fim, os pés. Ele gritava o nome
de Belle, a chamando, talvez, e meu rosto corou de raiva por aquele monstro
querer a minha filhinha. Gritei as primeiras palavras que vieram na minha
cabeça o fazendo parar de chamar por Belle e de rodopiar. Quando eu finalmente
achei que ele iria responder as minhas perguntas, aquela coisa sumiu novamente.
Voltei a mim depois de um tempo que não sei distinguir se foi um minuto ou uma
hora e entrei no quarto de mamãe. Lá estava minha mãe, deitada, dormindo como
um anjinho. Cheguei ao seu lado, encostei a mão nela com o intuito de acordá-la
e contar o que havia acontecendo e perguntar se eu tinha ficado louca. Seu
corpo estava com um gélido tom não humano. Meu coração voltou a disparar
imediatamente e um medo me cercou. Chamei mamãe por mais algum tempo até
reparar que eu estava pisando em uma enorme possa de sangue. Um grito longo e
tremido saiu da minha garganta. Vi uma faca ensanguentada ao lado do corpo sem
vida de mamãe, porém não havia nenhum corte, aparentemente. Naquela altura do
campeonato, quis correr para longe daquele pesadelo mas fui obrigada a me
conter pelo bem de Belle. Sai do quarto de mamãe tentando não pensar no que
havia acabado de presenciar e mantive o foco em Belle. O quarto de hóspedes ficava
no fim do corredor e imaginei que Belle poderia estar lá. O corredor tinha só
alguns metros, mas para mim, pareciam quilômetros... Enfim minha mão estava na
maçaneta onde Belle deveria estar. Deveria pois ela não estava em sua cama. Era
um pesadelo. Sim, um simples pesadelo que logo vai acabar.
Cadê minha filha?
Eu gritava por ela e várias lágrimas escorreram no meu rosto.
Quando me virei para sair daquele quarto ouvi a voz de Belle me chamando vindo
de dentro do guarda-roupa. Eu o abri com minhas mãos trêmulas e, digo para vocês,
nunca fiquei tão aliviada na minha vida abraçando a Isabelle. Dei uma rápida
olhada para a Belle e notei seu vestido que estava manchado de sangue e seus
olhos que antes eram azul bebê, agora estavam negros como uma noite sem luar.
Ignorando esses detalhes, peguei a mãozinha dela e a conduzi, rapidamente, para
fora. Estávamos perto de sair da última porta da casa Belle parou
inesperadamente. Apesar de tudo agitado dentro de mim, me abaixei para olhar em
seus olhos e falei:
“Filha, querida, vamos
embora, vamos para casa, meu amor. A vovó não está bem e...”.
Ela me interrompeu:
“Mamãe, a vovó está
morta, o Júlio disse que ela era má e eu acredito nele. Ele não quer que eu vá
embora, mamãe”.
“O quê? O que você disse
Belle?”
Lágrimas escorriam dos meus olhos desesperados.
“Mãe, não fique assim,
está tudo bem, está chovendo, é um dia bom”.
Realmente estava chovendo e naquela situação eu nem tinha
reparado. Depois de tanto tempo com essa dúvida, achei que era uma boa
oportunidade em perguntar à Belle o porquê de ela gostar tanto da chuva.
“É em dias de chuva que
o Júlio aparece para brincar, mãe”.
Sim, era por isso! Tinha chovido aquele dia...
O garoto apareceu pela terceira vez interrompendo meus
pensamentos e agora parecia com raiva e ansioso. Belle sorriu e perguntou a mim
se poderia brincar com ele hoje. Isso já estava me cansando a tal ponto que
poderia fazer qualquer coisa para essa coisa
sair de nossas vidas. Eu disse a Belle que nunca mais veria o Júlio novamente e,
em contrapartida, ele gritou de volta dizendo que Isabelle era dele e ninguém poderia
ficar no caminho, nem mesmo eu – o
jeito como ele disse aquelas palavras doeu profundamente na minha alma e o meu
instinto de mãe me dominou, me fazendo ignorar o monstro, pegar Belle no colo e
sair correndo para o meu carro que estava estacionado do outro lado da rua ao
lado de duas enormes árvores que eu costumava subir quando era da idade de
Belle. A coloquei na cadeirinha no banco de trás, liguei o motor e acelerei o máximo
que pude. Naquele momento, não sabia exatamente para onde eu iria mas queria
sair dali, talvez ir para o interior tirar umas férias, ou quem sabe, até nos
mudar de país. Mas esse pensamento saiu rapidamente da minha cabeça quando eu
olhei para o banco de trás e lá estava aquele monstro de novo sentado ao lado e
sorrindo para a minha filha.
Minha filha!
Na adrenalina, acelerei ao invés de frear na curva perigosa,
fazendo o meu carro bater no poste e capotar duas vezes até o carro parar do
outro lado da estrada. Três dias depois acordei em um hospital com a visão um
tanto turva, escutando um barulho horrível e com a consciência falha, reuni
forças para perguntar onde estava Belle e se ela estava bem. A enfermeira que
estava comigo no quarto me olhou com estranheza e me disse que não sabia quem
era Belle e que não havia mais ninguém no carro quando me encontraram.
Nunca mais vi minha filha Isabelle. Reza a lenda que Júlio
está por ai em dias chuvosos procurando garotinhas para “brincar”.